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Democracia ou Plutocracia ?

Said Barbosa Dib

Os atuais problemas de corrupção, de falta de ética com a coisa pública, de bate boca interminável entre fanfarrões do Congresso e todas as baixarias que alimentam os lucros e os salários da mídia comprometida, passam necessariamente por um problema estrutural de nossa democracia: o caráter apenas formal do modelo democrático liberal. Modelo perverso que destrói o interesse público, anula a preocupação com o próximo, em nome de um individualismo egoísta e agressivo, da concorrência desagregadora, da luta de todos contra todos, da mesquinharia daqueles que crêem que as pessoas só são, só existem, apenas se podem consumir num mercado cada vez mais fechado, excludente e instável.
Essa democracia manca, capenga, de fachada, doente em seus alicerces baseados, não na preocupação solidária e cívica, mas no poder do dinheiro, na capacidade de consumo, gera uma elite política predominantemente comprometida apenas com seus interesses, justamente aqueles que vêm a coisa pública como negócios privados. É a mercantilização de tudo e de todos destruindo as instituições políticas e os valores sociais. Ao contrário do que se diz normalmente, essa elite parasitária e sua visão privatista e corrupta acerca da República, infelizmente, não são apenas resultantes de um desvio individual de caráter, uma anomalia comportamental, mas, pelo contrário, são parte do próprio mecanismo de funcionamento da doutrina liberal. Pensamento que permite e estimula a proliferação de ladrões de uma forma epidêmica. A corrupção é, nesse mundo que prioriza a competição desenfreada e a mercantilização dos valores, não uma exceção, mas parte integrante, estrutural, do modelo capitalista liberal.
O povão, analfabeto e oprimido pelas necessidades básicas totalmente ausentes, é marginalizado dessa abstração monstruosa que os neo-bobo-liberais chamam ´´O Mercado ``, esse verdadeiro demiurgo que transforma feios em bonitos, corruptos em Madre Teresa de Calcutá, coronéis em trombones anti-corrupção. Esse povão, ingênuo e massacrado, sem amor próprio, é impelido a acreditar na sua incompetência e procura votar naquele que, diferentemente dele, considera um vencedor. É o patrão, o fazendeiro, o doutor, aquele que fala bonito e de forma indecifrável, pessoa influente e educada, ou seja, a sua antinomia: a elite.
Há uma introjeção da própria inferioridade, mecanismo ideológico esse que decorre da total falta de uma verdadeira e substancial política educacional. Desde Roma Antiga, quando os plebeus lutaram durante quase trezentos anos para terem um representante político (Tribunus Plebis) que defendesse seus interesses e acabaram escolhendo apenas patrícios para essa tarefa, que qualquer moleque alienado sabe que pobre não vota em pobre. Por isso estarão sempre fadados à pobreza, coitados! Principalmente nessa nossa democracia de cartões de crédito...
Hoje, o jogo democrático, que é teoricamente o poder do povo, pelo povo e para o povo, iguala patrões e empregados, pretos e brancos, homens e mulheres, velhos e jovens somente diante da Lei, do Estado ou de Deus; porém, no mundo real, fora do idílio da urna, da histeria dos palanques, das artimanhas dos showmícios e da irritante insistência dos cabos eleitorais, o que predomina são as profundas e insuperáveis desigualdades socioeconômicas que fazem desta mesma democracia um anacronismo político, um governo apenas vindo da alienação do povo, mas não pelo e para o povo. Uma pseudodemocracia apenas de abonados, dos que estão incluídos na possibilidade de consumo farto, numa verdadeira e cruel plutocracia (governo dos ricos).
Liberais hipócritas!!! Parem de tagarelar falácias e sejam honestos. Não há como ter uma democracia político-institucional sem uma democratização socioeconômica. Com a atuação do poder econômico, a fragilidade dos tribunais eleitorais, a atuação muito pouco imparcial da mídia lacaia dos conglomerados econômicos e o absurdo inominável das tentativas de anistia das multas eleitorais, a lisura e a isenção das eleições tornam-se tão confiáveis quanto promessa de fidelidade de marido patife.
Votar e ser votado, liberdade de expressão, de locomoção,etc., são apenas abstrações, retórica diante de uma realidade profundamente desigual que não permite uma verdadeira isonomia nas competições entre os grupos sociais. Isso é conversa pra boi dormir ou pra pobre não chiar. É saudosismo tacanho de liberal que acha que ainda estamos na Revolução Francesa, quando surgiu a democracia formal burguesa como alternativa aos regimes absolutistas e, ao mesmo tempo, desesperada com a possibilidade de que o povo levasse a sério o seu discurso libertário.
Essa matilha apátrida e globalizada acha que as pessoas, os seres humanos, só existem, só são gente, cidadãos, se estão dentro do deus ´´Mercado``. Que é isso?!? Quanta bobagem! Que verdadeira Sodoma estamos nos tornando! Mesmo com a realidade assustadora de hoje, com todo esse processo de globalização, de competição louca entre desiguais, de desemprego crônico, de medo e violência, de sociedade da informação, esses ditos liberais se esquecem, ou por ignorância ou por má fé, que a grande massa da população está excluída da saúde, da solidariedade, do reconhecimento, do status, da tranqüilidade, do respeito como seres humanos, da dignidade, enfim, da cidadania, justamente porque não estão e não estarão jamais integrados ao mercado, principalmente se esse tipo de mentalidade persistir.
Hoje, nossa luta democrática deveria dar um salto qualitativo, ou seja, deveria aplicar na realidade o que já conquistamos no papel. E isso só tem um nome: distribuição de renda e valorização de nossos recursos, nosso mercado interno, nossas mentes, nosso Brasil. Se um décimo do que a Constituição prescreve no capítulo social fosse cumprido, estaríamos na ilha da Utopia de Thomas Morus, a começar pelo salário-mínimo. Não há como transformar pessoas tratadas como animais de carga pela sociedade em cidadãos. Isso é loucura! Paremos de, apenas, nos indignar com a questão da violência sem que abordemos essas questões estruturais. Sejamos honestos.
Os países que as nossas elites despersonalizadas e medíocres gostam tanto de citar como modelos de democracia, descobriram isso há muito tempo, por isso são o que são na aplicação de suas instituições democráticas. Ou para evitar o comunismo ou para não permitir a morte do capitalismo pelas suas próprias crises cíclicas internas; ou, mesmo, para permitirem conquistar suas posições na geopolítica internacional, todos as chamadas Democracias Ocidentais tiveram que encarar a questão social não como uma questão apenas de desvio do mercado ou mau aplicação de modelos de desenvolvimento, mas através de enérgicas atuações do Estado junto às desigualdades sociais. E é bom que se diga, as custas da pobreza do Terceiro Mundo. Haja vista a social-democracia dos países nórdigos, o New Deal nos EUA, o trabalhismo britânico, etc. Todos, modelos que transformaram os países do chamado G 7 em donos do Mundo e modelos de democracia, não apenas formais como a nossa, mas substanciais, portanto, também socioeconômicas. Fica o desabafo. Estamos cansados de sermos feitos de idiotas.
Que o nosso processo democrático amadureça, não apenas com esse ou aquele partido, esse ou aquele setor social, mas com a percepção e luta de todos nós brasileiros. E aí incluo as elites que tinham que perceber que poderiam ganhar muito mais se valorizassem os interesses nacionais sem pensar apenas no curto prazo, no ganho imediato, na dependência viciosa para com os ´´investimentos`` estrangeiros. A mera contraposição da atual democracia ao Regime Militar já não cola mais, temos de encarar a questão social como o grande empecilho ao desenvolvimento do País como um todo.

Said Barbosa Dib é Professor de História
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