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Os Senhores da Guerra

Prof. Marcos Coimbra*

O Papa João Paulo II pronunciou-se terminantemente contra a invasão do Iraque, na qualidade não só de Chefe da Igreja Católica, como também um dos maiores estadistas do mundo. Sua visão é de médio e longo prazo. Ele sabe que a agressão, caso concretizada, principalmente sem o aval da ONU, provocará conseqüências imprevisíveis. Poderá ser o início de um retorno à barbárie, jogando uma civilização contra a outra. É uma questão muito séria, envolvendo as três grandes religiões monoteístas do mundo: a católica, a judaica e a muçulmana. É um preço muito alto a pagar por razões econômicas, as quais podem ser resolvidas sem necessidade do massacre de um povo.

De fato, a guerra é o estágio final de um longo processo que deve privilegiar a diplomacia, o entendimento político e não a carnificina. Quem decide sobre ela são, geralmente, políticos e banqueiros, que nunca vivenciaram as agruras de um conflito bélico. Nos seus luxuosos gabinetes, decidem sobre a vida e a morte de milhares de soldados jovens e de milhões de pessoas inocentes, sem o mínimo risco. Deveríamos voltar no tempo, para a época em que as divergências eram resolvidas por intermédio de combates diretos entre os líderes das nações em conflito. Se Bush e Hussein fossem obrigados a pelejar diretamente, um contra o outro, como na Idade Média, não haveria morticínio.

No caso específico analisado, a hipótese de guerra prioritária para os EUA deveria ser a Coréia do Norte que, não apenas possui, como divulga o domínio da tecnologia nuclear e espacial, chegando a ameaçar a potência hegemônica. Ou a China que, sem dúvida, será a potência emergente do terceiro milênio, detentora de uma crescente base econômica e de poder militar ameaçador, de fato. É por isto que não serão atacados. O Iraque, na prática, cercado, bombardeado nas zonas de exclusão, milhares de vezes, desde o término da guerra, com suas exportações e importações controladas, sem capacitação tecnológica sequer para salvar a vida de suas crianças, com carência dos medicamentos adequados, é incapaz de ameaçar concretamente os EUA, sendo inimaginável deduzir que represente perigo real. É por isto que será invadido. Há várias maneiras de provocar a saída de Hussein, sem massacrar o já sofrido povo iraquiano.

As causas econômicas que motivam a voracidade bélica de Bush são, primordialmente: a) em nov/2000, Hussein converteu suas reservas monetárias de dólar em euro. Na época, um euro valia cerca de 80% de um dólar. Hoje, vale mais do que um dólar. A Coréia do Norte também assim agiu. A Venezuela ameaça fazer o mesmo. Se todos os países membros da OPEP assim procederem, as previsões otimistas indicam uma queda no valor do dólar de 20 a 40%, no curto prazo, ocasionando graves danos à economia dos EUA, a qual deixará de ter seu enorme déficit público, de balanço comercial e sua colossal dívida, financiados pelo Resto do Mundo; b) o Iraque possui a segunda maior reserva de petróleo do mundo. Os EUA estão altamente dependentes do ouro negro importado. Suas reservas atingiram o ponto crítico, forçando-os a comprar mais de 50% do petróleo consumido. Assumindo a administração do Iraque, passarão a dominar quase todo o petróleo do Oriente Médio, com exceção do Irã. Derrubando Hugo Chávez na Venezuela e construindo o oleoduto capaz de trazer petróleo do ecúmeno eurasiano, através do Afeganistão, ocupado por títeres, até portos sob seu controle, alcançarão o equilíbrio entre a oferta e demanda do petróleo.

E o pior. Caso ataquem sem o aval da ONU, estará aberto um precedente muito perigoso. Amanhã poderá ser o Brasil, por causa da Amazônia, por um motivo qualquer. Vamos agir preventivamente, enquanto é tempo.


Prof. Marcos Coimbra Professor Titular na Universidade Candido Mendes, Professor na UERJ e Conselheiro da ESG
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Artigo publicado em 06.03.2003 no Monitor Mercantil.