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AS SEMENTES DO AI-5

(Extraído do livro “O fascínio dos anos de chumbo”, de autoria do general reformado Raymundo Negrão Torres – Permitida a reprodução)

Os compromissos democráticos do movimento de março de 64, sinalizados pela eleição direta para a Prefeitura de São Paulo, realizada em 21 de fevereiro de 1965, com a derrota de Franco Montoro e Lino de Matos,.candidatos da oposição, e da eleição direta para governador em onze Estados, realizada em 3 de outubro seguinte, seriam atropelados pela ação violenta da esquerda radical que, insuflada e apoiada por Pequim, Argel e Havana, adota a guerrilha e o terrorismo.

O Ato Institucional no 5, de 13 de dezembro de 1968, é o passo mais controvertido e mais discutido do regime implantado após a derrubada do Sr. João Goulart. Mas nunca é mencionado o fato de ser esse ato de força - que representou um retrocesso na tentativa de normalização institucional promovida pelo presidente Castello -, o resultado de um processo iniciado já em 1965 com a rearticulação dos comunistas de diversos matizes e cujas sementes viriam brotar ao longo dos anos que se seguiram. É o que tentaremos mostrar com o retrospecto histórico abaixo.

Em março de 1965 é desencadeada a fracassada tentativa de guerrilha do coronel Jefferson Cardim e no dia 22 de abril desse mesmo ano, registra-se um atentado à bomba contra o jornal “O Estado de São Paulo”.

No início de 1966, Carlos Marighela publica panfleto intitulado “A Crise brasileira”, onde esboça a tese da guerra de guerrilhas e propõe: “O Exército Brasileiro terá de ser derrotado e destruído por ser o poder armado da classe dominante”. No dia 31 de março desse mesmo ano explodem duas bombas em Recife, sendo uma no 6º andar do Edifício dos Correios e Telégrafos e outra em frente à casa do general Comandante do IV Ex, destruindo seu automóvel. Uma terceira, colocada na Câmara Municipal, não explodiu. No dia 20 de maio seguinte, verifica-se um atentado contra a Assembléia Legislativa de Pernambuco, com o lançamento de dois “coquetéis Molotov” e de um petardo de dinamite

No dia 25 de junho de 1966, acontece o atentado à bomba no Aeroporto dos Guararapes (Recife), contra o general Costa e Silva e no qual morrem o almirante Nelson Gomes Fernandes e o jornalista Edson Regis de Carvalho e sofre mutilações o tenente-coronel Sylvio Ferreira da Silva, um dos muitos feridos no atentado. Segundo Jacob Gorender, obra da Ação Popular (AP). Na mesma data ocorreram mais dois atentados à bomba em Recife: um contra a sede da União de Estudantes Pernambucanos e outro contra o Serviço de Informações do Consulado americano (USIS).

Em março de 1967, chega ao Brasil a primeira remessa de armas enviada pelos cubanos e infiltrada pela Guiana Inglesa. No dia 15 desse mesmo mês, é empossado o presidente Costa e Silva e entra em vigor uma nova Constituição. No dia 2 de abril é desbaratado pela polícia mineira o foco guerrilheiro de Caparaó do Movimento Nacionalista Revolucionário, de orientação brizolista. Em junho, segue para Cuba a primeira turma da Aliança Libertadora Nacional(ALN) para treinamento de guerrilha. No dia 2 de agosto ocorre a explosão de uma bomba na sede do Corpo da Paz, no Rio de Janeiro, com um ferido. Nesse mesmo mês e ano, é lançado Manifesto da Política Operária (POLOP) - facção à qual pertencia o atual Secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda - pregando a luta armada. Em setembro, no dia 24, acontece o que é considerada a primeira ação da ALN: em Presidente Epitácio é assassinado um fazendeiro - Zé Dico – em uma invasão de fazenda. Em dezembro, Marighela regressa de Cuba e toma conhecimento de sua expulsão do PCB. Em represália, funda o Agrupamento Comunista de São Paulo, embrião da futura ALN que inicia os assaltos com a finalidade de obter fundos. No dia 15, de dezembro é morto o bancário Osíris Motta Marcondes, do Banco Mercantil de São Paulo, durante assalto de terroristas à agência da qual era gerente. E o ano de 1967 termina com o registro do primeiro assalto a banco da ALN, em São Paulo, comandado pelo próprio Marighela.

1968 – o ano do AI-5 - começa com assaltos a bancos, a carros-pagadores e roubos de explosivos, sem identificação das organizações subversivas, para confundir a polícia. No dia 15 de março, ocorre um atentado à bomba contra o Consulado americano em São Paulo, com dois feridos. Um deles, o estudante Orlando Lovecchio Filho, de 22 anos, perdeu uma perna. Em abril, já no dia 1º, registram-se grandes manifestações de rua no Rio de Janeiro. Três horas de conflitos, depredações e guerrilha urbana. Manifestações e tumultos em quase todas as capitais. Dia 10 – Explosão à dinamite no QG da Polícia Militar/SP. Dia 15 – Lançamento de uma bomba contra o antigo QG do II Exército, na rua Conselheiro Crispiniano, com dois feridos. Dia 20 – Novo atentado à bomba contra o jornal “Estado de S. Paulo”.

No dia 1o de maio, organizações de esquerda aproveitam um comício na praça da Sé, em São Paulo, para promover um “badernaço”, durante o qual expulsaram o governador do Estado, Abreu Sodré, do palanque a pedradas. Dia 15 – Atentado à bomba contra a Bolsa de Valores em S. Paulo. Dia 18 – Atentado à bomba contra o Consulado da França em S. Paulo.

Durante o mês de junho, passeatas, depredações, explosões em edifícios públicos e em vias de transportes, assaltos a bancos, greves, ocupação de faculdades, em diversos pontos dos país, sendo que no.dia 21, há nove horas de guerrilha urbana no centro do Rio de Janeiro, com a morte de um soldado (Nelson de Barros) e invasão e depredação da Bolsa de Valores, mostrado em retrospectiva publicada em dezembro de 1998, em encarte do jornal “O Estado de São Paulo”, ao ensejo dos 30 anos do AI/5

No dia 22 de junho, assalto e roubo de armas no Hospital Militar de São Paulo, ação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Dias depois, o capitão Lamarca rouba do paiol de sua unidade munição para essas armas. No dia 26, atentado com carro-bomba da VPR contra o QG do II Exército - SP, no qual morreu o soldado sentinela Mário Kozel Filho e ficaram gravemente feridos vários soldados da guarda.

No dia 1º de julho, é morto a tiros no Rio de Janeiro, por engano, o major do Exército alemão Edward Ernest Tito von Westernhagem, cursando uma escola militar brasileira (ECEME), confundido com o capitão boliviano Gary Prado, suposto matador de Che Guevara. Crime do Comando de Libertação Nacional (COLINA). Autoria confirmada por Jacob Gorender, no livro Combate nas Trevas.

No dia 20 de agosto, é abatido a tiros o soldado da PMSP, Antônio Carlos Jerrery, quando de sentinela. No dia 7 de setembro, é assassinado a tiros o soldado Eduardo Custódio de Souza, da PMSP, por terroristas, quando de sentinela no DEOPS/SP

No dia 12 de outubro, para relembrar um ano da morte de Guevara na Bolívia, é fuzilado pela VPR, na frente de sua mulher e filhos o capitão do Exército americano Charles Rodney Chandler, de 30 anos, estudante de uma universidade de São Paulo e veterano do Vietname, sob a falsa acusação de ser agente da CIA. No dia 13 de novembro, o mistério da autoria dos assaltos é desvendado, surgindo o nome de Carlos Marighela e da ALN que realizaram na capital paulista, durante o ano de 1968, 17 assaltos (11 a agências bancárias, 5 a carros pagadores e 1 a um trem pagador). Essas ações já contaram com a participação da primeira turma treinada em Cuba e em um desses assaltos tomou parte o então guerrilheiro da ALN, Aloysio Nunes Ferreira, um dos ministros do governo FHC..No dia 12 de dezembro, é roubado por uma organização subversiva todo o estoque de carabinas, pistolas, revólveres e munição das Lojas Diana, em São Paulo.

No dia 13, para enfrentar tais ameaças, o presidente Costa e Silva baixa o Ato Institucional no 5, interrompendo o processo de normalização institucional.