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Chico Fanatizado Buarque

por Ipojuca Pontes em 05 de janeiro de 2005

Resumo: Um ditador sangrento e envelhecido como Fidel Castro ainda é cantado em prosa e verso por artistas como Chico Buarque, que fecha os olhos para os crimes do tirano comunista em nome de um esquerdismo hipócrita.

© 2005 MidiaSemMascara.org

Os jornais de domingo são uma pausa para reflexão; alguns com intermináveis ensaios, outros com entrevistas longas e surpreendentes. Como os jornais de São Paulo, embora em crise, sobrevivem hoje mais endinheirados do que os jornais do Rio, um deles mandou um enviado especial atrás de Chico Buarque para entrevistá-lo em Roma e Paris.

Na entrevista, o compositor popular fala sobre o que esta fazendo e o que não está fazendo, cita Montaigne a propósito de uma frase (“Parce qu´etait lui, parce qu´était moi” - “Porque era ele, porque era eu”), faz suas ponderações de compositor milionário (tem apartamento em Paris, casa de campo, etc.) e diz das suas peripécias criativas – coisa que, no momento, devo confessar, não me interessa, pois em matéria de música popular parei (melancolicamente) em Ataulfo Alves, Cole Porter e Manezinho Araújo, o genial criador de emboladas que nasceu na cidade do Cabo, perto do Recife, Pernambuco.

Lá para as tantas o compositor deixa a música popular de lado e passa a falar sobre política, especificamente política internacional. Ele revela, por exemplo, que nos anos 70 era conhecido na Cuba do ditador Fidel Castro com o “el embajador”, mobilizando ativo “intercambio” que envolvia artistas e intelectuais. Ele próprio, sem meio-tom, considera que, neste terreno, “cumpriu bem o seu papel”.

(Só para não perder o embalo: nos anos 70, enquanto Chico “cumpria bem o seu papel”, Castro mantinha sob tortura permanente nas masmorras de La Cabana e Porto Boniato milhares de presos políticos, entre os quais, trancafiados em inimagináveis celas-gaveta, os poetas Armando Valladares e Heberto Padilla, considerados pela Anistia Internacional como “prisioneiros de consciência”. El Caballo, como Fidel era conhecido, navegava num mar de violência. Entre mortos, torturados e desaparecidos, “O Livro Negro do Comunismo – Crimes, terror e repressão”, pesquisa dos historiadores esquerdistas Stéphane Courtois e Jean Louis Margolin (Editora Bertrand Brasil, Rio, 1999), contabiliza no “Gulag das Américas” cerca de 50 mil prisioneiros)

Em tom de aparente nostalgia, o compositor justifica-se afirmando que existe na sua geração (dele, lá), uma forte relação afetiva com a revolução de Castro, a ponto de considerar o ditador como “um exemplo de resistência”: “Ele é o único adversário dos Estados Unidos na América Latina que resistiu a golpes e assassinatos e ali está. Ele sobreviveu a vários atentados. Manteve e mantém até hoje uma posição altiva. E isso é algo que ninguém deve ignorar e que eu admiro”.

O que Chico Buarque chama de “altivez” em Fidel (na juventude, tido e havido como sicário) é a petrificação de uma alma tirana e egoísta que transformou Cuba numa ilha-prisão, mantendo a ferro e fogo, em verdadeiros campos de concentração, os dissidentes políticos que ousam enfrentar a ditadura castrista – ditadura que há mais de 45 anos leva o povo cubano a sobreviver num cotidiano de miséria, medo e repressão e, o mais humilhante, a matar a fome em cima dos dólares enviados por foragidos da ilha a partir dos sempre generosos Estados Unidos da América.

No final da entrevista, plenamente “engajada”, mas nada estranhável para o universo em que se projeta o chamado beautiful people da vida artística brasileira, o famoso compositor se diz “contrariado”. E confessa: “É claro que me desagrada a idéia de um partido único, das liberdades vigiadas, mas existe ao mesmo tempo a necessidade de um controle para manter os valores da revolução, que a meu ver são louváveis”.

E aqui se revela todo fanatismo do sujeito que é considerado o “grande compositor” popular do país. Ele, anestesiado pela embriaguês do antia-mericanismo declarado (e, no meu entender, irracional), não quer saber se Fidel Castro tornou-se um tirano vulgar que se mantém no poder pela força do terror policial, oprimindo com prisões, torturas e fuzilamentos em série os que se manifestam contra “os valores da revolução”, que Chico Buarque acha louvável, mas que a realidade vivida pelo povo cubano demonstra ser intolerável. O que importa, para o “agrado” do compositor, é que Fidel Castro “é o único adversário dos Estados Unidos na América Latina” - o que, no seu entender, justifica plenamente o “controle” exercido por Castro e sua corriola para que se mantenha na ilha o lodaçal de sangue que cimenta a encalacrada ditadura do tirano.

No plano internacional, a tolerância com Fidel Castro (e sua revolução) está chegando – se não já chegou – ao fim. Seus constantes apelos à violência institucionalizada que se abate sobre Cuba levam o mundo civilizado a execrá-lo. Ninguém com razoável dose de consciência está mais disposto a justificar a infindável tirania de Castro e até mesmo comunistas declarados como José Saramago, por exemplo, renunciaram o papel de defensores da ditadura sanguinária[*].

No Brasil, no entanto, uma elite intelectual que se proclama sábia e justa, mas que, de ordinário, faz exatamente o oposto do que diz, não tem o menor pejo em cultuar ou - quando não - manter sob uma cortina de silêncio as estripulias do empedernido ditador. Para os integrantes da jubilosa corporação “pega bem”, para sacanear os Estados Unidos, tecer, em entrevistas domingueiras, elogios ao “Comandante Castro”, pois, em que pesem as evidencias, persistem na defesa de uma revolução que eterniza a repressão, o cárcere e a miséria (física e moral).

Quem os amaldiçoa, em sites e artigos que escapam ao “controle” do tirano do Caribe são os milhares e milhares de dissidentes que amargam o seu jugo.

Que Deus os proteja.


[*] Nota Editoria MSM: Na verdade, o "rompimento" de Saramago com Castro foi uma ridícula mise-en-scéne que naquele momento era importante representar, e ambos já voltaram ao bom e velho relacionamente de cúmplice e criminoso.