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NEM LOMBROSO NEM FREUD

por Maria Lucia Victor Barbosa

Enquanto o presidente da República, em ininterrupta campanha à reeleição, afirma que tudo faz para investigar e punir culpados de acusações de corrupção, sua tropa de choque no Congresso, que primeiro tentou evitar a qualquer custo a instalação de CPIs, agora se dedica à operações de abafamento dos trabalhos em curso. E o faz com tanto empenho que trai o temor de que venham à tona dados e fatos que possam comprometer, inclusive, o presidente Luiz Inácio.

Exemplo disso ocorreu na CPI dos Correios quando parlamentares petistas conseguiram barrar requerimentos que chamariam para depor o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o presidente do Sebrae, Paulo Okamoto, o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e aquele que parece ser o doleiro oficial do PT, Antonio de Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona.

Recorde-se que sobre o presidente do Banco Central foram levantadas suspeitas de remessas irregulares para o exterior. Isso ocorreu quando funcionava a CPI do Banestado, presidida pelo deputado José Mentor (PT-SP). Dessa CPI restou um dossiê com enorme lista de pessoas que nada tinham a ver com irregularidades e crimes, preparado cuidadosamente por Mentor e entregue por este ao então poderoso “primeiro-ministro”, José Dirceu. Após isso a Comissão Parlamentar de Inquérito foi devidamente abafada numa cabal demonstração do apetite do governo Lula por pizza. Quanto a Henrique Meirelles, foi blindado (para usar um termo ao gosto dos petistas) pelo governo que pediu ao STF para alçá-lo à condição de ministro, privilegiando-o com decorrente imunidade referente ao cargo.

Paulo Okamoto serviu para blindar o já tão blindado Luiz Inácio no caso do nebuloso empréstimo aparentemente não pago e feito por este junto ao PT durante a campanha presidencial. Okamoto andou dando explicações controvertidas sobre a dívida e membros da CPI dos Correios queriam ouvi-lo para maiores elucidações. Naturalmente o presidente nada sabe sobre o assunto, não se lembra do que ocorreu em sua campanha e nem tem a mais remota idéia do que seja PT.

Arnaldo Faria de Sá poderia esclarecer quantas viagens um dos Lulinhas, Fábio Lucas da Silva, fez ao Japão. Aliás, os meninos do senhor presidente têm aproveitado a estadia de seu pai em poder tão alto para fazer bons negócios e desfrutar de lazer inacessível ao comum dos trabalhadores. Confundindo setor público com privado, prática que o sociólogo Max Weber denominou de patrimonialismo, os meninos da Silva nada mais fizeram do que seguir o exemplo de sua mãe, que mandou plantar em jardins palacianos floridas estrelas vermelhas numa demonstração simbólica de demarcação de território. Afinal, PT e governo formam indissociável entidade de domínio.

Quanto ao doleiro, supõe-se que em seu depoimento chegaria bem mais longe do que Duda Mendonça com suas meias verdades e muitas mentiras. Claramunt (nome que parece saído de um conto de ficção, daqueles cheios de suspense) aparenta ser muito mais inocente do que o ex-tesoureiro do PT. Cesare Lombroso (cujas teorias sobre classificação de criminosos a partir de certas características físicas são contestadas por alguns e admiradas por outros) diria que Delúbio se enquadra melhor em suas hipóteses do que Claramunt. E olha que Delúbio em seus depoimentos tem sido a cara do PT.

Enquanto se avoluma o maior escândalo de corrupção que o país já assistiu, o presidente segue em viagens inaugurando tudo que vê pela frente, de pintura de meio fio a ponto de ônibus. Protegido pelas oposições ele tem tranqüilidade para seguir assim “governando”. E exemplo de fidelidade oposicionista na Câmara aconteceu recentemente quando PSDB e PFL preferiram assumir o ônus de aprovar o texto original da medida provisória, que fixou o valor de R$ 300 reais para o salário mínimo, do que desgastar o presidente que, sem tal amparo, teria que reduzir o mínimo de R$ 384,29, aprovado no Senado. Nesse caso houve também manobras regimentais e o “apoio” de aliados, pois o governo se tornou excepcionalmente generoso ao descongelar subitamente R$ 1 bilhão do orçamento. Foram atendidos parlamentares, governadores e prefeitos pelo ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner, e todos se entenderam.

Desses espetáculos pouco dignos se depreende que não podemos contar no Brasil com partidos políticos, em que pese o bom desempenho de alguns parlamentares. Portanto, se algo acontecer no sentido de punição dos culpados, o que inclui o impeachment de Luiz Inácio, isso virá através da pressão de entidades de classe, de um aumento de combustíveis e, especialmente, de uma virada da Rede Globo.

Mas, se diante de tudo que acontece o presidente continuar blindado e for reeleito, nem Lombroso nem Freud explicariam o mistério insondável de um povo que tanto ama ser enganado e se compraz de forma tão perfeita com o crime.