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OS COMBATENTES DA "LIBERDADE"

por Denis Rosenfield,
filósofo

Valores estruturam uma sociedade. Através deles, essa se pensa e oferece os parâmetros através dos quais os indivíduos balizam o seu comportamento. Quando mais essa sociedade for articulada pela idéia da liberdade, maiores serão as suas chances de desenvolvimento sócio-econômico e, sobretudo, de formas mais civilizadas de comportamento. Aquilo que viemos a considerar como humanidade é a expressão desses valores e princípios que foram assim consolidados. Eis por que o debate de idéias é central na perspectiva de uma sociedade livre.

O recente mal-estar que tem se manifestado em nossa sociedade a respeito das torturas cometidas durante o regime militar não deve dar lugar a um comportamento maniqueísta, como se os militares estivessem do lado do mal e os guerrilheiros e/ou terroristas, no do bem. Esse tipo de polarização, em boa parte dos casos, visa a ocultar algo relevante na ótica de estruturação de uma sociedade. Estamos presenciando um ataque sistemático à instituição militar como se os esquerdistas de então fossem os combatentes da liberdade. A pergunta que vem imediatamente à mente é: estavam eles comprometidos com a democracia?

Um pouco de história não nos fará mal. Quando do chamado golpe de 1964, havia, sim, uma tentativa em curso de instalação de um regime de tipo comunista no Brasil. Embora essas ações estivessem se aproveitando das instituições democráticas vigentes, não é menos verdadeiro que o seu propósito consistia na abolição pura e simples dessas mesmas instituições. A sociedade vinha sendo convulsionada por atividades subversivas que acompanhavam os diferentes modelos comunistas nessa época vigentes, do soviético ao maoísta, passando pelas diferentes versões trotskistas, guevaristas, castristas, albanesas e outras. O zoológico ideológico era aterrador, sobretudo pelos crimes que ocultava. Acrescentemos, ademais, que a sociedade brasileira em geral clamava por uma participação militar, consubstanciada em apoios dos mais importantes e influentes jornais da época, além de representantes da Igreja e da sociedade civil em geral. Muitos dos que depois se tornaram críticos do regime militar quando do seu fechamento e da prática que então começou a corroer a própria instituição militar apoiaram, em nome da democracia e da liberdade, que se desse um basta a essas tentativas que se tornavam cada vez mais insurrecionais.

Quando um setor da esquerda pegou em armas contra a ditadura, ele não o fez em nome da liberdade e da democracia, mas em nome de suas propostas de instauração de um regime de corte totalitário no país. Os que hoje se apresentam como combatentes da liberdade nada mais eram que os representantes do totalitarismo. Que pretendam agora se colocar como vítimas é um contra-senso histórico, uma imoralidade, que se faz ainda às expensas dos contribuintes, que devem pagar vultuosas indenizações aos que tinham como propósito a eliminação da liberdade no Brasil. Peguem o caso tão em voga da guerrilha do Araguaia. Essa guerrilha seguia uma orientação maoísta que tinha entre os seus ícones assassinos como o Secretário Geral do Partido Comunista da Albânia e Mao Tse-Tung e o seu grupo na China. As suas vítimas se contam aos milhares e aos milhões, sem que nada seja dito a respeito. Pretendiam eles instaurar a democracia no Brasil ou um governo totalitário desse tipo?

Causa, portanto, espécie na discussão atual a distorção desses fatos, como se o que estivesse em questão, do ponto de vista das supostas vítimas/guerrilheiros, fosse a liberdade. Essa falsificação histórica obedece a outros propósitos que não são apenas os exorbitantemente pecuniários, mas também os de "mostrar" que os atuais detentores do poder estão do lado do "bem", e ali sempre estiveram. Denegrir as Forças Armadas corresponde a uma estratégia de marcar um "inimigo", para então fazer passar um outro projeto de enfraquecimento da democracia. Quando a luta pelas idéias parte desse tipo de falsificação histórica, o seu propósito consiste em orientar diferentemente as ações dos cidadãos desse país. A crítica justificada da tortura e dos excessos de determinados momentos do regime militar não pode ser uma desculpa visando a encobrir uma outra tentativa de silenciamento da liberdade.