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RICOS, BURGUESES E SOCIALISTAS

MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA

Segundo o sociólogo Ralf Dahrendorf, há uns sessenta anos atrás chamar uma pessoa de burguesa poderia soar como um insulto. Já o termo proletário era tido como título honorífico. Sobretudo os intelectuais se esforçavam para não parecerem burgueses enquanto os movimentos operários designavam como vida burguesa tudo que se odiava e que devia ser superado. “Ter propriedade era burguês, logo tinha que desaparecer a propriedade”. “Usar gravata era burguês, logo cada um andava com o colarinho da camisa aberto”. “Ter uma vida matrimonial harmoniosa era burguês, logo se falava em amor livre”.

Essa mentalidade que faz tempo desapareceu da Europa persiste entre nós impregnada nas dicotomias: direita/esquerda ou capitalismo/socialismo. Já a distinção entre liberais e conservadores desapareceu, fundindo-se equivocadamente numa só categoria para fazer restar liberais x progressistas. No maniqueísmo ideológico tupiniquim os que pertencem à esquerda representam o Bem e os que estão na direita, o Mal.

Tal interpretação envolve também países. Por exemplo, os Estados Unidos são capitalistas, logo traduzem o Mal. Cuba é socialista, portanto, encarna o Bem, não importa o que Fidel Castro tenha feito contra a democracia, a liberdade e os direitos humanos.

Nessa visão simplista de mundo todos se comprazem no gosto de simular serem “bons” porque são de esquerda. Afinal, entre nós ser de esquerda significa, pelo menos teoricamente, possuir bom caráter, ser honesto, basear-se num comportamento ético. E, finalmente, é de bom tom ostentar o rótulo de esquerda. Portanto, chamar alguém de liberal equivale hoje ao xingamento de burguês utilizado no passado, em que pese a prosperidade das sociedades liberais.

Note-se ainda que não temos partido que assuma ser de direita. No máximo algum é rotulado de centro-direita. Os demais são de centro-esquerda ou de esquerda. O Partido dos Trabalhadores, que empolgou a presidência da República, sempre se intitulou de esquerda em que pese nunca ter conseguido definir que tipo de socialismo professava, se a social-democracia ou a ideologia comunista de Marx. Possivelmente isso se deu por um lado por conta da miscelânea das várias tendências desse partido e, por outro, pelo pragmatismo que faz tempo vem fazendo do PT um partido igual aos outros ou mesmo pior, já que passou a praticar sem o menor pudor o que antes criticava duramente.

Interessante é que no Brasil quanto mais se é burguês, rico e famoso, mais chique é ser esquerda. Geralmente, intelectuais renomados, acadêmicos, artistas famosos, profissionais liberais bem-sucedidos, empresários vinculados ao Estado é que fazem questão de dizer que são de esquerda. Os “proletários” estão suficientemente ocupados em ganhar a vida e não têm crise existencial nem ideologia. A questão, porém, é que as posturas esquerdistas dos abastados burgueses não passam de pose ou má consciência e seus discursos não se convertem em realidade. No máximo fazem alguma caridade que, ao final, mantém os pobres sempre pobres porquanto dependentes de insuficientes benefícios alheios.

O PT no poder é o exemplo mais eloqüente da esquerda de fachada, pois vem apresentando retórica social que não passa de marketing, transformando antigas e duras críticas em suas próprias posturas, utilizando em larga escala o vale-tudo da política em composições com arquiinimigos de outrora. Rica e famosa a nova classe dominante petista não perde, porém, o habito de se colocar como esquerda defensora dos fracos e oprimidos que, todavia, sua cúpula de poder oprime com impostos e taxas sem nada dar em troca.

Para que não digam que minha análise é parcial, admito que certos traços desse governo petista são genuinamente de esquerda. Entre eles, o ranço autoritário, o processo crescente de estatização, os projetos que privilegiam a censura à liberdade de expressão, o aparelhamento estatal, a submissão do Legislativo e do Judiciário ao Executivo.

Se Karl Marx revivesse, quem sabe entraria em depressão. Nossos socialistas burgueses passam longe de qualquer ímpeto revolucionário. Eles teriam tudo a perder e nada a ganhar se a impossível utopia da tomada do poder pelo proletariado, que alguns um dia tanto defenderam, pudesse se realizar.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga.